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Nos mudamos de Brasília para Maringá, interior do Paraná, em busca de qualidade de vida. Mas, a partida não foi nada fácil.

De Brasília a Maringá: A partida (parte 1)

Pisei pela primeira vez em Brasília no dia 22 de fevereiro de 2010. O avião aterrissou no aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek às 16h daquela linda segunda-feira de verão. Apesar do cansaço da viagem, eu tinha cochilado pouco durante o voo, estava cheia de disposição para recomeçar ali e viver tudo o que a capital brasileira tinha reservado para mim. 

Lá estava eu mais uma vez, sozinha, em uma cidade estranha. Não conhecia absolutamente nada nem ninguém. Isso não era um problema. Nunca tive medo de mudanças, de nenhum tipo. Meu espírito aventureiro sempre esteve pronto para desbravar o desconhecido. Eu era tão jovem, imatura e com tanta vontade de viver. Naquele dia, me vi exatamente como nas cenas de filme em que a mocinha do interior fica encantada ao chegar na cidade grande.  

Dois futuros colegas de trabalho me aguardavam no desembarque de passageiros. Eles me levaram para conhecer o restante da equipe e o local onde eu iria trabalhar nos próximos 12 meses. Durante o trajeto, no banco de trás do carro, eu nem piscava; meus os olhos estavam inundados pela magnitude da cidade. Ali, senti que grandes coisas iriam-me acontecer naquele lugar. E elas aconteceram. 

Nova mudança

As lembranças daquele dia e de tudo mais que vivi nos nove anos e sete meses seguintes vinham à minha mente com forte emoção enquanto dirigia até a escola para buscar meu filho, na época com dois anos de idade. Eu voltava de uma entrevista frustrada de emprego. A tristeza não era apenas pela vaga, mas porque acreditei que, se conseguisse o trabalho, talvez pudesse adiar a nossa mudança de Brasília para o Paraná.

Havíamos tomado a decisão de trocar de cidade há poucos dias. Meu marido e eu chegamos à conclusão que seria melhor para nós três (Joaquim, ele e eu) passarmos um tempo em uma cidade menor, perto da minha família no interior do Paraná. Racionalmente, concordei; meu coração não. Para mim, era doloroso pensar em voltar para casa dos pais.

Entendi que as coisas estavam mais difíceis desde o nascimento do Joaquim, sem uma rede de apoio consistente. Eu estava retomando a carreira aos poucos, após ficar cerca de 1 ano e meio me dedicando exclusivamente à maternidade. Sabia que não teria outra oportunidade de ser mãe, então me dispus a viver inteiramente a função nos primeiros anos de vida do Joaquim. Não me arrependo dessa decisão. 

Sem encaixe

Quando me senti pronta, procurei o apoio de colegas de profissão para retornar ao trabalho. Eles foram maravilhosos, prontamente me estenderam a mão. Já esperava que minha recolocação não fosse tão rápida após um longo período fora do mercado. Só não imaginava que as barreiras seriam maiores para quem tem filhos, principalmente quando não é possível contar com rede apoio, familiar ou paga.  

Comecei aceitando todos os freelancer que apareceram, não importava o horário, o dia ou a empresa; estava disposta a retomar minha carreira profissional. Quando dei por mim, estava vivendo a mesma rotina que tinha antes do Joaquim. Não deu certo. Afinal, para manter aquele ritmo, envolvia muitas pessoas diferentes nos cuidados do menino, pessoas que precisavam alterar a própria rotina em função da minha. Não era justo. 

Foi aí que meu marido me deu um ultimato: ‘não podemos mais viver assim, precisamos de ajuda. Joaquim merece uma infância melhor’. Ele tinha total razão. Mas a garotinha dentro de mim, que sonhou em ter uma carreira, a jovem que venceu o câncer duas vezes enquanto cursava a faculdade, que enfrentou dificuldades financeiras e tantas outras barreiras, estava arrasada diante da mulher agora mãe, e que, sem titubear, vai priorizar o filho. 

Última esperança

Demos início ao plano. Golber (meu marido) pediu demissão e começamos a nos preparar para entregar o apartamento. Com a possibilidade se materializando, meu corpo não aguentou. Tive uma forte crise de ansiedade que me levou ao hospital. Apesar de tudo, ainda havia em mim uma esperança.

De repente, a oportunidade de reverter a situação parecia ter chegado. Numa bela manhã, depois de deixar o Joaquim na escola, onde, nessa época, ele ficava de 8h às 14h, comecei a organizar as coisas para a mudança quando recebi uma ligação me chamando com urgência para uma entrevista de emprego. Assim que desliguei o telefone, prontamente, me arrumei e segui para um prédio que conheço bem no Setor Bancário Sul. 

Fui recebida pelo representante da empresa em Brasília e por outros dois vindos de São Paulo. A entrevista parecia correr muito bem. Eu estava tão animada, afinal, era uma vaga que eu desejava há muito tempo: viajar pelo país fazendo reportagens sobre o agronegócio. Seria incrível. Além disso, com horários e dias fixos de trabalho, poderíamos nos adaptar a uma rotina e talvez não precisássemos mais nos mudar de Brasília.

Não foi dessa vez

Num dado momento da entrevista, um dos recrutadores me perguntou: ‘Seu currículo é muito bom. Gostamos de você. Porém, vejo que há uma lacuna de dois anos, por quê?’. Respirei fundo antes de responder, com a voz trêmula, que tenho um filho, com dois anos de idade naquele momento, e que me dediquei a ele no período mencionado.

Imediatamente, vi seus rostos mudarem de feição. Sabe aquela expressão ‘o brilho da pessoa sumindo’? Pois então, foi exatamente o que aconteceu com todos nós na sala. O diretor olhou pra mim e disse: ‘Sinto muito. Estamos priorizando pessoas sem filhos para a vaga.’ Aquelas palavras pareciam facas cortando meu coração em vários pedacinhos.

Fiquei tão frustrada. Só tive forças para descer ao encontro de meu marido, que me aguardava para almoçar no restaurante do prédio ao lado. Após comermos, ele voltou para o trabalho, pois ainda estava cumprindo aviso prévio, e eu fui buscar o Joaquim na escola. 

No percurso até a creche, minha memória, carregada de melancolia, me reportava ao dia em que cheguei em Brasília e a tudo que vivi nos quase 10 anos que morei lá. 

Partir é preciso

Rapidamente conseguimos vender a móveis, eletrodomésticos, louças. Algumas coisas foram destinadas à doação. Ficamos apenas com roupas, computadores, brinquedos e objetos de valor afetivo. Pouquíssimas pessoas sabiam sobre a mudança, apenas os amigos mais próximos. Era doloroso pra mim. Por isso evitava o assunto. Ademais, na minha cabeça, tinha certeza de que voltaríamos em breve. 

Como já tínhamos entregado o apartamento, fomos gentilmente hospedados na casa de uma de minhas cunhadas, pois antes de partir definitivamente, aceitei um trabalho temporário de 15 dias. Foi minha despedida. Cada dia com aquele microfone na mão, cada portaria, cada reportagem tinha um sabor tão especial. 

Terminei o freelancer no finalzinho de uma sexta-feira. Na manhã seguinte, seguimos viagem em dois carros. Conforme o Distrito Federal ficava pra trás, mais meu coração apertava e as lágrimas, tão comuns naqueles dias, escorriam sem controle. Um choro intenso de quem não conseguia desapegar da vida construída naquele lugar.

Depois de cerca de 10 horas de estrada, chegamos a Maringá ao amanhecer de domingo. O dia estava lindo, ensolarado e quente. No entanto, eu novamente estava em pranto. Respirei fundo, fiz uma prece, pedi a Deus que a nova fase, na cidade que guarda uma parte importante do meu passado, fosse leve e breve. 

Infelizmente, não foi bem assim. Mas, isso é história para o próximo post.

Leia também

Últimos trabalhos em Brasília

Caso tenha curiosidade, vou deixar abaixo alguns exemplos dos meus trabalhos freelance no período que retornei ao mercado de trabalho, após passar cerca de um ano e meio me dedicando exclusivamente à maternidade. Entre as empresas estão o SBT Brasília, TV Justiça e Canal Rural. Contudo, se quiser ver mais, é só acessar a aba Portfólio.

Playlist com trabalhos realizados no SBT Brasília.
Playlist com trabalhos na TV Justiça.
Algumas reportagens no Canal Rural.
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