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Mudança de Brasília a Maringá fase de adaptação

De Brasília a Maringá: Adaptações (parte 3)

Ainda estava me recuperando das sequelas deixadas pela Covid19, Golber arrastava a perna doente, e a pandemia assolava o mundo; mesmo assim, decidimos ter nosso próprio espaço. Começamos 2021 na nossa casa, tentando seguir em frente depois de tantas turbulências. 

Golber resolveu praticamente tudo sozinho, pois eu continuava na mesma correria de trabalho do ano anterior, com a TV, gravação de videoaulas e outros freelance. Sentia-me exausta e culpada, pensando estar negligenciando meu filho e meu casamento. 

E, de certa forma, estava, embora me esforçasse muito para dar conta de tudo. Fases difíceis sugam mais energia, nem sempre temos o suficiente.

É bem verdade que, em tempos de crise, é quase impossível evitar abalos no relacionamento. O nosso sofreu alguns. Superá-los exige um tanto mais de amor, paciência, compreensão, resiliência e fé, para consigo e para com o parceiro. Apesar das dificuldades e necessários distanciamentos, conseguimos atravessar a tempestade de mãos dadas. 

Atenção redobrada

Entretanto, em meio a organização do casal, estão os filhos, que também são impactados com a momentânea desestabilidade da família. Aqui, não foi diferente. A nossa falta de rotinas afetou diretamente o Joaquim. 

Enquanto estávamos focados em equilibrar a vida familiar, profissional e a tensão causada naturalmente pelo coronavírus, o Joaquim, que sempre teve problemas para dormir, simplesmente trocou o dia pela noite; às vezes, nem dormia. O menino chegou a ficar 25 horas seguidas acordado.

Golber e eu nos revezávamos para cuidar dele. Tentamos tudo que conhecíamos: brincadeiras, deixá-lo cansado, atividades esportivas, banhos, músicas, histórias, mas nada parecia funcionar. Quando nos esgotaram todos os recursos, e estávamos exauridos, saíamos em passeios noturnos de carro. Geralmente, ele pegava no sono depois de uns 40 minutos a uma hora rodando pela cidade. Foram várias noites e madrugadas assim. 

Infelizmente, essa estratégia não vingou. Além de cansativa, o bolso também reclamou, pois o preço da gasolina estava nas alturas. Precisávamos de outra solução. 

Prioridades

Definitivamente, não dá pra abraçar o mundo. Era impossível continuar daquela forma, pois estávamos vivendo exatamente como antes, em Brasília. Só que agora com um agravante: a pandemia. Não tínhamos encontrado o equilíbrio e a qualidade de vida que planejamos quando decidimos trocar de cidade. Não fazia sentido todo o esforço que fizemos para continuar na mesma situação.

O sentimento de que era preciso parar e respirar ficou mais forte quando por pouco não faltei ao aniversário de quatro anos do meu filho. A data coincidiu com um feriado, e eu só consegui estar presente porque um colega me pediu para trocar de horário com ele. Mesmo assim, trabalhei pela manhã e, com ajuda da minha irmã, organizei uma festinha familiar improvisada. 

Confesso que não me esforcei para estender o contrato que venceria em breve. Não tinha condições emocionais para continuar naquele ritmo. Preferi priorizar o tempo em família e estar presente na infância do Joaquim. 

Depois de um ano e meio de contrato, finalizei o trabalho no início da noite de uma sexta-feira. Após bater o ponto, fui direto para carro e lá fiquei sem forças para dirigir; apenas deixei as lágrimas escorrerem livremente num choro de alívio misturado ao sentimento de fracasso. Vi ali, naquele momento de paralisia, minha autoestima profissional em frangalhos. 

Uma solução de cada vez

O cenário naquele momento era de vacinação quase completa, e finalmente, o período de isolamento social estava chegando ao fim. A vida parecia estar voltando ao normal. As escolas reabriram gradativamente. Portanto, em algumas semanas, o Joaquim também retomaria as aulas presenciais. Aí estava nosso primeiro desafio a ser vencido, pois ainda não tínhamos conseguido regular o sono do Joaquim. 

Minha grande preocupação era como fazer em uma semana o que não conseguimos em meses. Pensei em mil formas para que o Joaquim dormisse cedo no domingo.  Para minha surpresa, não precisei fazer nada. Ele simplesmente deitou e dormiu. No dia seguinte, levantou pleníssimo para o primeiro dia de aula depois de quase dois anos. Desde então, passamos a ter uma rotina. Joaquim ainda tem dificuldades com o sono, mas nada fora de controle como antes. 

A segunda questão que aguardava uma solução era minha casa. Quase oito meses depois de nos mudarmos, o lugar praticamente não tinha mobília além do essencial. Havia caixas por todo lado que não foram abertas desde que chegamos de Brasília. A sala nem sofá tinha e parecia um depósito de caixas. Estava tudo improvisado. Meu Deus, como uma criança estava vivendo assim?

Por último, precisava trabalhar, afinal, os boletos sempre vencem, independentemente da nossa situação. Nessa parte, contei com a ajuda de amigos. Durante os anos que morei fora, mantive contato com alguns antigos colegas de profissão de Maringá. São pessoas muito queridas e, por isso, fiz questão de cultivar a amizade à distância. No meu retorno, eles foram super importantes nessa transição profissional. 

Uma dessas colegas saiu de licença maternidade, e eu a substituí por quatro meses, escrevendo para um blog na modalidade home office. Um trabalho tranquilo que, aos poucos, foi fortalecendo minha autoestima profissional. 

Sem volta

Assim que as coisas começaram a se acalmar, Golber passou uma semana em Brasília. Ao voltar, foi taxativo ao dizer que não sentia nenhuma vontade de morar lá novamente, pois já havia se adaptado a Maringá, e a viagem só serviu para confirmar esse sentimento.

Aquela conversa me deixou arrasada. No fundo, eu ainda nutria esperanças de retomar a vida que deixei em Brasília. Alguns dias depois, tive essa oportunidade, por pouco tempo, mas valeu cada segundo.

Os eventos estavam voltando a ser realizados, com algumas restrições, e um colega me convidou para trabalhar por uma semana em um encontro promovido pelo Ministério da Saúde. Não pensei duas vezes, aceitei imediatamente. Dois anos depois, lá estava eu revisitando meu passado.

Quando cheguei em Brasília, a sensação era de nunca ter saído de lá. Era como se os últimos dois anos não tivessem existido. Foram dias intensos de trabalho, renovação da autoestima profissional e muito aprendizado.

Foi incrível sentir, viver minha antiga vida, mesmo que por poucos dias. Embora tenha sido uma viagem a trabalho, deu tempo de receber os abraços apertados cheios de amor que tanto me fazem falta. Foi maravilhoso trabalhar, rever os amigos e colocar as risadas em dia.

 A vontade era ficar lá, onde fui tão feliz. No entanto, as prioridades do momento estão em outro lugar.

Assim, fechamos nosso segundo ano em Maringá. A história continua no próximo post De Brasília a Maringá: Aceitação (parte final).

Veja também:

Uma das inúmeras matérias que fiz sobre a chegada de vacinas. Momentos de alívio e esperança.
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