Quando pensei em ser jornalista, sabia que gostaria de experimentar um pouco de cada área, pois tudo no jornalismo me encanta. Tive essa sorte. Passei por assessoria de imprensa, jornal impresso, site de notícias, rádio e televisão. Em comum, além da comunicação, há um detalhe essencial: por mais que alguns achem possível, ninguém faz jornalismo sozinho. E é disso que mais gosto, o trabalho em equipe.
A gente nem sempre percebe, mas no jornalismo, assim como na vida, dependemos uns dos outros. Não sabemos tudo. O trabalho coletivo nos deixa menos soberbos. Aliás, diga-se de passagem, jornalistas costumam ter o ego um tanto inflado. Em equipe, o esforço e o sucesso, todavia, são sempre compartilhados.
Quando estamos em grupo, ninguém é superior. A contribuição de cada um é fundamental e, se alguém faltar, o resultado fica comprometido. A engrenagem só roda quando todas as peças atuam em sintonia.
Mesmo os profissionais multifacetados, como os vídeo-repórteres que pautam, gravam e editam seus próprios materiais, em algum momento precisam de um colega. Correspondentes podem até parecer solitários, porém seus textos passam por empresas, editores e revisores.
Já os comunicadores independentes, que graças à internet constroem seus próprios canais de notícias, cedo ou tarde precisam de parcerias para alimentar suas plataformas.
A roda sempre gira
Os jornalistas trabalham como uma comunidade, ou pelo menos deveriam. A roda gira rápido e nunca sabemos quando vamos precisar do colega. Embora todos queiramos ser os primeiros a publicar uma notícia, não podemos esquecer a ética, as regras de convivência e, acima de tudo, a veracidade dos fatos.
Competição pelo furo ou exclusiva existe, claro, entretanto não deve ultrapassar o respeito. Hoje podemos estar em empresas diferentes e amanhã dividindo a mesma baia.

Apesar da disputa, ainda resiste a camaradagem. Há apoio nas longas coberturas, solidariedade nas coletivas apertadas e troca de informações. O compromisso é o mesmo: levar informação de qualidade ao público.
Uma “barrigada”, aquela notícia falsa divulgada como se fosse verdadeira com status de furo, pode custar caro. Por isso, quanto mais gente checando uma história, maiores as chances de acerto.
Melhor chegar depois com responsabilidade do que espalhar fake news. Com o estrago feito, fica mais difícil consertar. A manchete costuma vir em letras garrafais; já a retratação, quando acontece, se esconde num cantinho da página.
Liberdade e responsabilidade
A internet trouxe autonomia, e isso é bom e perigoso ao mesmo tempo. O lado positivo é que o acesso à informação ficou mais amplo e independente dos grandes veículos. O lado preocupante é que nem todos usam essa liberdade com a devida responsabilidade.
A situação, ao meu ver, se agrava principalmente depois de 2009, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu que o diploma não é obrigatório para exercer a profissão. É bem verdade que a prática se aprende na redação, convivendo com profissionais mais experientes, contudo a universidade oferece a base teórica: ética, legislação, história da imprensa. O equilíbrio está nos estágios, que juntam teoria e prática.
A desobrigação da formação universitária desvaloriza ainda mais uma profissão já tão precarizada. Há quem se aproveite disso para contratar pessoas despreparadas, pagando salários muito abaixo do mercado. No entanto, essa é uma conversa longa, talvez para outro dia.
O bom jornalismo, afinal, passa por filtros antes de chegar ao público: a pauta, a reportagem, a edição, a revisão. Se algo falhar, a responsabilidade recai em cascata. Produzir informação de qualidade, com agilidade e responsabilidade, só é possível quando muitas mãos trabalham juntas, cada uma com sua especialidade.
Caos organizado
Entre tantas experiências, a assessoria de comunicação em grandes eventos e a televisão são minhas preferidas. Nesses lugares, a engrenagem coletiva precisa funcionar impecavelmente, como numa corrida de revezamento. Cada profissional entrega sua parte e o resultado final é da equipe.

Gosto daquela correria de uma redação barulhenta. Quem olha de fora acha que nada vai dar certo, e surpreende, pois no fim tudo se encaixa. É como o trânsito indiano: caótico, mas funcional. Um caos organizado, sustentado pelo apoio mútuo e por um único propósito, fazer dar certo.
Infelizmente, as redações têm encolhido, pedindo que um só profissional faça o trabalho de muitos. Ainda assim, não me sinto menos apaixonada pela profissão. Pelo contrário: é apenas uma questão de adaptação. Porque, no fim das contas, o jornalismo sempre será coletivo. Mesmo quando parece individual, ele é feito de muitas mãos, muitas vozes, muitos olhares.
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