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O glamour no jornalismo não existe

Glamour no jornalismo

Na infância, eu tinha dois sonhos: ser uma mulher independente em todos os sentidos e me tornar jornalista. Quando criança, assistia aos telejornais e me imaginava sendo uma das repórteres. Apesar de ser uma menina tímida, me sentia capaz de fazer aquele trabalho se me dedicasse o bastante.

A imagem que eu tinha deles era de pessoas sérias e inteligentes, viajando pelo mundo, presentes em fatos importantes, acompanhando investigações, denunciando crimes, se aventurando em busca de cumprir sua responsabilidade social, participando e testemunhando a história diante de seus olhos.

Ah, como eu queria ser como eles. Aqueles jornalistas escreviam tão bem, falavam de assuntos diferentes com propriedade. Como eles sabiam tanto sobre tantas coisas? Será que seria como nos filmes de reportagem? Parecia ser tudo tão emocionante.

Eu também queria ter aquela vida. Ficava imaginando como seria cobrir uma guerra, eventos esportivos, ver de perto atos políticos que mudaram os rumos da nação, mostrar a reconstrução de lugares devastados, entrevistar celebridades e estar nos bastidores de grandes shows, ou simplesmente contar histórias de pessoas comuns que fazem a diferença e quase ninguém percebe. 

Para minha felicidade, anos depois tive a oportunidade de vivenciar tudo isso, com exceção das guerras; dessa parte desisti ainda na faculdade quando li biografias de repórteres que cobriram guerras. 

Pensando bem, mesmo assustada com as histórias e correndo risco de comprometer minha saúde mental, acho que teria ido sim se houvesse oportunidade. Deve ser uma experiência e tanto. Olha, é um caso a se repensar. Ou não. Melhor não. Agora sou mãe, tenho filho ainda pequeno para criar.

Choque de realidade

Bem, passado os devaneios que me desviaram por alguns minutos do tema desse post, voltemos ao assunto do glamour no jornalismo que, na verdade, nada tem de glamuroso. Pelo contrário, é muita labuta e pouca valorização.

Ao trabalhar em uma redação diariamente, entendi que nem tudo era exatamente como eu pensava. Lamentavelmente, nem todo jornalista é de fato inteligente, responsável pelo que noticia, ou totalmente  imparcial e comprometido com a informação. Sem contar que a remuneração não é lá essas coisas, salvo raros cases de sucesso, dificilmente alguém ficará milionário nessa profissão.

Entretanto, por sorte, a grande maioria dos profissionais, assim como eu, é apaixonada pelo que ofício, apesar do salário e da desvalorização geral, pois sabemos o quão intensa e importante é a nossa missão, que nos últimos tempos incluiu também combater à disseminação de notícias falsas. 

Atualmente, infelizmente, de acordo com a legislação, não é obrigatório um diploma universitário para atuar como jornalista, e o que vemos é um grande números pessoas sem nenhuma preparação ou parâmetros éticos divulgando notícias indiscriminadamente, verdadeiras ou falsas, sem avaliar o impacto que tal informação pode causar, visando apenas visualizações e likes.

A boa notícia é que os grandes veículos de comunicação, com reputação a zelar, em praticamente 98% das vezes dão preferência em contratar jornalistas formados, que tenham responsabilidade com aquilo que publicam. 

Agora, você pode me questionar, com razão, mas as grandes empresas também competem por audiência, e às vezes pesam a mão. Sim, de fato, isso acontece, porém numa proporção inferior, e depois de uma avaliação de risco. Obrigatoriamente, de praxe, antes de publicar qualquer matéria, os jornalistas checam minuciosamente todas as informações com comprovações, e procuram as pessoas envolvidas para obter sua versão da história.

Além disso, tanto as empresas quanto os profissionais que ‘bancaram’ a divulgação da informação são responsabilizados em várias esferas por seus atos, acrescentado o dever moral de reparar de alguma forma a situação.  

Igual mas diferente

A rotina em uma redação de jornal é aparentemente comum,assim como em qualquer empresa. Os jornalistas são funcionários que cumprem horário semanal e escalas de plantões, respeitam a hierarquia do setor, esperam um dia serem promovidos ou se aposentarem, atendem às demandas diárias da função etc.

Assim como em outras formações, o jornalista é habilitado em funções diferentes. Por exemplo, pode ser repórter, apresentador, produtor, editor, redator, diretor e tantas outras em qualquer das editorias. 

No entanto, a nossa profissão tem uma peculiaridade. Apesar de seguir um padrão e uma rotina de trabalho, jamais, em hipótese alguma, um dia será igual ao outro. Em tantos anos de carreira, nunca tive um dia de trabalho que fosse parecido com o outro. 

Numa mesma jornada, circulamos por mundos opostos e semelhantes. Podemos registrar as mazelas em um bairro paupérrimo e, no momento seguinte, ser recebidos em gabinetes de autoridades, ouvir histórias de pessoas simples de pouco estudo mas muita sabedoria e, em seguida, entrevistar intelectuais.

No mesmo dia noticiamos sobre economia, política, violência, esporte, entretenimento. Além disso, o jornalismo levanta debates sobre assuntos sérios, alerta sobre o trânsito, leva opções de cultura e arte, dá voz àqueles que raramente tem condições de se fazer ouvir.  

Tudo isso dá trabalho. Enfrentamos chuva, sol, calor, frio, lama, poeira, intermináveis chás de cadeira, portas fechadas na cara, gente mal-humorada, ameaças… é cada humilhação que você nem faz ideia. Fora a correria para entregar o material e as cobranças de todos os lados. A gente se diverte, ri, chora, se revolta, se indigna, se conforta, sente alívio, agradece, tudo num dia só. Uma verdadeira loucura. Digo mais: é tão cansativo quanto recompensador. 

Sempre vale a pena

E vou te contar, dá um orgulho danado ver uma produção bem feita publicada. Afinal, sabemos o trabalho deu, a dedicação que foi necessário para alcançar o resultado. Mais satisfatório ainda é quando alguma reportagem surte efeito e melhora a vida de alguém. 

É muito gratificante quando um bairro recebe benfeitorias após o jornal mostrar a insatisfação dos moradores esquecidos pela gestão pública, ver a justiça sendo feita com a visibilidade de denúncias e do apelo popular, ou uma matéria sobre golpes evita que novas vítimas sejam lesadas. Quando uma reportagem triste comove e incentiva a solidariedade, ou uma história de superação inspira outras tantas, ou quem sabe uma entrevista fofa que alegra o dia de alguém. 

Esses são apenas alguns exemplos de como o jornalismo responsável pode fazer a diferença na vida de muita gente, inclusive nas nossas. Pois, cada matéria é uma emoção particular. Graças a minha profissão, tive a oportunidade de conhecer pessoas e lugares que jamais teria condições se não fosse o trabalho. 

O jornalista aprende algo novo constantemente, aprende com os fatos, com os entrevistados e com os lugares e ambientes por onde passa. Não somente aprende sobre o tema da matéria, mas principalmente sobre a vida e o ser humano. 

É… a vida real é bem diferente daquela que idealizei nos meus sonhos infantis ou retratada nos filmes, já os sentimentos projetados por eles, ah! esses não. Eu continuo tão encantada e apaixonada pela minha profissão quanto imaginava quando era criança.

Apesar da realidade não ser um conto de fadas, nem de longe glamourosa, ainda é aquela que me faz brilhar os olhos e ter a certeza de que fiz a escolha certa e que quero continuar vivendo. Não me vejo trabalhando em qualquer outra coisa. Me sinto totalmente realizada nessa área.

Curiosidade

A foto de capa representa um dos milhares de perrengues pelos quais as equipes de jornalismo passam nas ruas. Naquele dia, estávamos nos preparando para entrar ao vivo, e o repórter cinematográfico quis enquadrar na imagem o banner colocado no alto do prédio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pra atingir tal objetivo, tive me equilibrar de salto alto em cima de caixas dos equipamentos. Detalhe: ventava bastante no momento, mas no final deu tudo certo.

Vou deixar aqui embaixo como ficou essa entrada ao vivo no ar.

Você também pode conferir um pouco das minhas aventuras jornalísticas na aba Portfólio ou no Youtube ou nas minhas redes sociais.  

Todo o glamour da profissão nesse ao vivo me equilibrando de salto alto em caixas e enfrentando o vento
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