Relógio analógico com ponteiros girando em alta velocidade, representando o ritmo acelerado da vida moderna.

O mundo em velocidade 2.0X. Você tem pressa para quê?

Como diz a música Como uma onda, de Lulu Santos: tudo muda o tempo todo no mundo. E muda rápido. Ultimamente, as mudanças têm acontecido de forma absurdamente acelerada. Tenho a impressão de que vida está acelerada em velocidade 2.0X. Mal conseguimos reagir. Antes mesmo de assimilarmos uma novidade, chega outra, trocando tudo de lugar. O prazo de adaptação diminuiu.

Já dizia Lenine, no trecho de Paciência:

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para.”

Sim, a vida não para mesmo. É uma corrida sem fim atrás do próprio rabo. Aí me pergunto: para onde e por que corremos tanto? Qual o propósito dessa competição desenfreada? Se alguém diminui as passadas para respirar fundo, tomar um fôlego, já é o suficiente para ficar desatualizado. Aí vem a angústia e a cobrança de não acompanhar tantos avanços. Uma sensação de estar sempre atrasada, que me faz apressada até em momentos nos quais não preciso ter pressa.

O coelho atrasado dentro de nós

Eu tenho pressa, muita pressa, até mesmo quando não tenho pressa. É uma programação entranhada no meu ser, assim como o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas. O bichinho que, de certa forma, guia a personagem principal por uma série de aventuras, carrega consigo um relógio e demonstra estar sempre muito atrasado. E, por mais que corra, não consegue cumprir o cronograma, não antecipa compromissos, não chega no horário marcado nem termina o que começou, pois não há tempo o bastante para as tarefas infinitas e, muitas delas, sem lógica.

Enquanto acelero, me pergunto: ao menos sabemos para onde estamos indo? Será que esse lugar justifica a ânsia de chegar lá? Antes mesmo de formular uma resposta, a realidade me puxa de volta para a corrida dos ratos. Tic-tac, os ponteiros não param. Acelera mais e mais. 

Vejo que, antes, havia um certo período de adaptação entre uma atualização e outra. Como se os deslocamentos não fossem tão bruscos como agora, em que sequer temos tempo de sentir o medo do novo, porque o novo é agora — e amanhã já é outro novo diferente. Simplesmente não há mais espaço para a estabilidade.

Entre infância e rugas: o tempo que escorre

Faço um esforço tremendo para segurar um pouco mais a infância do meu filho, torcendo para ter mais um tiquinho, que seja, do que resta daquela ingenuidade genuína e graciosa, que desconhece as maldades do mundo — privilégio que só experimentamos enquanto crianças. Na mesma toada, faço o possível para prolongar minha juventude e vitalidade. Mas, infelizmente, não tenho os recursos necessários para impedir que a vida cumpra seu ciclo em ritmo expresso.

Meu filho está em pleno desenvolvimento e descobertas. A cada amanhecer, me deparo com um rostinho menos bochechudo e com questionamentos que não existiam no dia anterior. E, quando olho para o espelho, também não me reconheço. Há rugas que não vi ali ontem à noite. O rosto parece derreter. Hoje, o primeiro fio de cabelo branco surgiu, e minha perna esquerda já não tem a mesma elasticidade que antes me orgulhava. Novamente, minha reflexão é interrompida pela multidão de obrigações impossíveis de serem cumpridas com a agilidade que a vida moderna exige. Os dias estão impressionantemente mais curtos.

A pressa que esgota o planeta

Quando olho ao meu redor, assim como eu, todos estão ocupadíssimos, visivelmente cansados e, claro, atrasados. Volto a me perguntar: por que correr tanto? Compreendo que o mundo esteja em constante movimento — é orgânico. A Terra, a vida, nós… enfim, nada é estático e, de modo geral, as mudanças são necessárias e bem-vindas.

O que me assusta é a rapidez com que elas vêm ocorrendo nos últimos anos. É como se a Terra estivesse cobrando todos os consumos desenfreados de recursos naturais pela humanidade, em nome da evolução tecnológica e do poder, sem a devida preocupação com a preservação e a reposição. Sem dar condições para que a natureza se recupere.

Pessoa caminhando sozinha em uma rua movimentada, cercada por uma multidão desfocada, simbolizando isolamento em meio à correria cotidiana.

A humanidade saiu em disparada, numa tentativa insana de usufruir e viver tudo o que o planeta tem para oferecer antes que acabe — sem perceber que essa atitude, na verdade, está antecipando o fim, e não vivendo nada plenamente.

O comportamento e as convenções sociais são renovados constantemente, alimentando o insaciável desejo de poder de alguns. E nós, involuntária e apaticamente, somos levados nesse embalo, sem ânimo para reagir.

E esses grupos que buscam egoisticamente o controle lançam mão de todo tipo de ferramenta — honestas ou não — para alcançá-lo e se manter nele: guerras, tecnologia, governos, desestabilização das estruturas econômicas, oscilação de comportamento social, destruição do planeta e até de nós mesmos. Emaranhados nessa trama confusa e bem trançada, somos fantoches, entregando nossa energia e força ao sistema que definha a nós e à natureza. Mas, nada é o bastante para suprir a ganância do pequeno grupo obcecado por poder.

Corrida sem rumo, futuro sem beleza

Os poucos que ousam sair do trilho e alertar sobre a catástrofe que se aproxima, são atropelados pela manada que corre sem saber para onde ou porquê.

No ponto em que chegamos, não acredito que seja possível frear essa locomotiva. Passivamente, seguimos por uma estrada sem volta. Assim como a humanidade abrevia a validade das conquistas e sai em disparada para providenciar a substituição das novas vontades ditadas pelo mercado do consumo, a Terra também se apressa em enviar a fatura das consequências. Os sinais estão cada vez mais claros, mas estamos distraídos demais nessa corrida sem rumo para prestar atenção. E menos ainda para fazer algo a respeito.

Nos últimos anos, ocorreu uma sucessão de fatos que alterou as estruturas econômicas, sociais e ambientais, e atrapalha nossa visão crítica. E, o mais danoso: nos fez normalizar e acreditar que esse é o caminho certo. Pois a pressa de chegar a esse lugar — que ninguém sabe qual é — nos impede de perceber o perigo ao qual estamos nos submetendo.

Ainda há esperança?

Pessoa sentada sozinha, observando o pôr do sol no horizonte, refletindo sobre o sentido da vida em um momento de pausa.

Será que ainda é possível viver em ritmo saudável? Ter uma rotina que nos permita sentir a vida em sua plenitude? Ou será que já estamos condicionados a um sistema cruel, que turva a visão e nos faz sucumbir à busca de um ‘futuro melhor’ inalcançável, levando a um fim sem a oportunidade de contemplar a beleza de viver?

Nos raros intervalos, respiro devagar, procurando sentir a vida, me deixando levar a um simples estado de existência. Antes que consiga completar o download, minha mente é invadida por pensamentos carregados de culpa por fugir da realidade durante alguns instantes — em vez de otimizar a rotina fazendo várias coisas ao mesmo tempo.

Sigo tentando. Acrescentei à minha lista diária de afazeres um horário para viver verdadeiramente. Ainda não deu certo. 

E você, já se perguntou por que corre tanto? Você tem pressa para quê?

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