Mulher de 40 anos sorrindo com serenidade, representando superação, maternidade e recomeço. Adriana Cardoso vida aos 40 após o câncer

Quarenta anos e muitas vidas em uma só

O dia 20 de janeiro é duplamente especial pra mim. Além de ser o meu 40º aniversário, é também a data em que me recuperei da última quimioterapia. 

Desde então, celebro ainda mais todas as pessoas, lugares que conheci e as experiências que tive a oportunidade de viver. A maior delas, sem dúvidas, foi a surpreendente capacidade de esse corpo combatido gerar, gestar e parir mais vida: o meu milagre Joaquim.

Chegar aos 40 anos depois de sobreviver ao câncer duas vezes é uma dádiva que merece ser comemorada diariamente. Por isso, festejo muito mesmo. Faço o que posso pra fazer valer à pena cada dia vivido.

A mulher que eu queria ser

Programei minha vida até os 30 anos de idade. Meu Deus, como eu ansiava por me tornar uma balzaquiana. Pois, acreditava que os 30 significavam o auge de uma mulher. Eu sempre repetia isso. Provavelmente fui influenciada pelo filme de 2004, De repente 30

De repente 30 Filme

Estava na casa dos 20 quando a história de Jenna Rink (Jennifer Garner) virou febre e era exibida regularmente da Sessão da Tarde. Uma garota deseja ser adulta ao ser menosprezada pelas colegas no dia do aniversário de 13 anos. O pedido é milagrosamente atendido e ela se tornou uma mulher de 30 anos bem-sucedida. 

Nesta mesma época, eu estava bem longe do meu sucesso, porém caminhando em busca dele. Trabalhava em uma loja de materiais de construção cerca de 10 horas por dia para custear o curso universitário cuja mensalidade custava o dobro do meu salário. Foi quase um ano até conseguir o financiamento estudantil de 50% e alguns meses adicionais para comprar meu primeiro computador.

O câncer não me parou

Quando achei que navegaria por águas tranquilas, fui surpreendida por um tumor cancerígeno — ou melhor, dois. A rotina sobrecarregada, alimentação e sono negligenciados me causaram uma metástase de linfoma de Hodgkin. Nem isso me fez desistir do sonho de ser uma mulher de 30 anos profissionalmente bem-sucedida.

Depois de meses de quimioterapias e radioterapias, acreditávamos que estava tudo finalizado. Ledo engano. Um dos tumores ressurgiu, imune ao medicamento. Lá se foi um corpo fraco e debilitado se submeter a um tratamento ainda mais agressivo. Eu precisava aguentar. Faltava pouco para ter o diploma de jornalista nas mãos. Se a doença podia ser resistente, eu também era um osso duro de roer. Não entrego os pontos fácil.

A cada quimioterapia, eu passava dias prostrada. No entanto, assim que conseguia levantar da cama, vivia intensamente tudo o que estava reprimido. Vai que não dá tempo. Melhor garantir. O câncer é traiçoeiro.

Renasci no dia do meu aniversário

No dia 10 de janeiro de 2006, tomei a última quimioterapia daquela temporada. Dez dias depois, levantei da cama e saí com uma amiga. Quando voltamos, havia uma festa surpresa pelo meu aniversário de 23 anos. Sempre gostei de aniversários, mas aquele… aquele foi especial, assim como todos os que vieram na sequência. Nasci e renasci no dia 20 de janeiro.

Colação de grau após câncer.

Em fevereiro de 2007, colei grau com a mesma turma que iniciei o curso. Recebi meu diploma sem ter repetido um ano sequer. Senti tanto orgulho de mim mesma. Foi aos trancos e barrancos financeiros, emocionais e físicos. Venci a batalha. E assim seguiu até os meus 30 anos: lutas e mais lutas para alcançar conquista por conquista.

30 anos.

Chegar aos 30 foi realmente o auge como eu imaginava. Tornei-me uma mulher muito bonita, cheia de energia, segura, bem resolvida, independente — e jornalista em Brasília. Eu estava feliz e realizada. Claro que queria muito mais, e estava disposta a buscar.

A vida surpreende

Os 10 anos seguintes não foram exatamente como planejei. A vida me trouxe novidades para as quais não me preparei e não soube lidar. Foquei em viver sozinha, colocando toda a minha energia em mim, nos meus objetivos — especialmente os profissionais. A carreira como jornalista é meu sonho de infância, e eu me sentia plena construindo-a pouco a pouco.

Mas me distraí no percurso. Desviei o olhar e, de repente, acrescentei um marido. Depois, um filho. Formamos uma nova família. Sim, foi tudo meio inesperado e confuso pra mim. Fui apenas aceitando.

No período do tratamento, ouvi que ficaria estéril. Senti alívio. Afinal, a maternidade nunca esteve nos meus planos de vida. O curioso é que, exatamente 10 anos e 8 meses após a última quimioterapia, e após vários exames atestarem minha infertilidade, fui surpreendida com literalmente mais uma vida em mim.

Meu milagre Joaquim

E vou te contar: é uma vida que me exige muita vitalidade. Agora, todas as vezes que estou mal e olho para aquela carinha sapeca, me dá uma vontade absurda de viver.

Há cinco anos, Joaquim é minha confusão, meu cansaço, minha mudança de planos, minha instabilidade, minha vontade de aprender, meu desejo de ser melhor, minha emoção, meu orgulho, minha paz, minha alegria.

Olho pra ele e vejo tanta vida transbordando que penso: pode haver muita vida depois de um câncer — ou dois (como é o meu caso) — ou de tantos outros desafios que surgirem pelo caminho.

Atingi os 40 com a mesma gana de viver que me levantou da cama naquele 20 de janeiro de 2006. 

O tempo e a culpa

Arrependimentos, tenho muitos. Principalmente das boas oportunidades que perdi de dizer e fazer por mim, pelo meu hoje e pelos meus amados. A emergência do presente, misturada à ansiedade pelo futuro e à melancolia do passado, impede de ver a vida com clareza. Fica tudo meio embaçado.

Lamento não ter o poder de mudar o que já foi. Afinal, tempo não se recupera. Mesmo assim, dá uma vontade forte de voltar e fazer tudo diferente. Tomar outros caminhos, testar novas alternativas. Mas não dá mais. Só resta seguir em frente. A vida é isso: tentativas. Se foram erros ou acertos, quem poderá dizer?

Me perdoo, sigo, sinto

Nada disso me impede de sentir culpa pelo que deixei de fazer por medo, egoísmo, vergonha, prioridades que não deveriam ser prioridades naquele momento, ou sei lá mais o quê. Sinto muito por atitudes em que poderia ter agido e reagido melhor, causando menos danos aos envolvidos e a mim.

Recuso-me a segurar culpas de situações que me paralisaram por raiva ou mágoa. Pois, quando percebo que estou alterada, que não me sinto bem o suficiente e não tenho nada de bom a oferecer, prefiro me recolher, me acalmar, respirar, refletir, enxergar o cenário. Respeito meu processo de cura e perdão até ter segurança para decidir ou sentir algo diferente sobre o assunto.

Carrego culpas, claro. Só que não essas. As que me corroem são aquelas por não ter usufruído mais da companhia de pessoas muito especiais — e que, infelizmente, não terei nova chance de estar junto, aprender, dizer o quanto foram importantes e o quanto deixaram minha jornada mais leve e agradável. A dor da perda é uma dor tão dolorida que parece não ter fim. E com o tempo, ela até se intensifica.

Que venham os próximos anos

Consigo conviver com minhas falhas ao compreender que me faltava maturidade à época. E tem coisas que só posso entender agora — quando, aparentemente, já é tarde.

Demorei 40 anos para me permitir sentir, me permitir chorar. Embora ainda preso, por tantas vezes engolido, o choro está saindo. E, quanto mais sinto minhas emoções, menos as entendo.

Hoje, me tornei uma mulher de 40 anos com rosto, corpo, pele, cabelo, aparência e maturidade de uma mulher de 40 anos. Sigo feliz da vida, cheia de vontade de aproveitar cada pedacinho dos meus próximos, sei lá, quantos anos.

Seja bem-vindo, 40 anos! Vamos nos divertir.

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