Esta semana, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, surpreendeu os eleitores ao anunciar que renunciará ao cargo.
Ardern está no comando do país há cinco anos e meio. Foi eleita em 2017, aos 37 anos, tornando-se a chefe de governo mais jovem do planeta. No ano seguinte, entrou para a história como a segunda líder mundial eleita a dar à luz durante o mandato, a primeira foi a paquistanesa Benazir Bhutto, em 1990.
Esteve à frente de decisões difíceis como a pandemia de covid-19 e a recessão que veio em seguida, enfrentou o tiroteio na mesquita de Christchurch e a erupção de um vulcão na Ilha Branca.
Durante a coletiva no War Memorial Centre, em Napier, Hawke’s Bay, visivelmente emocionada, justificou a saída dizendo que já não tem energia para continuar. “Esses eventos… têm sido desgastantes por causa do peso absoluto e da natureza contínua deles. Nunca houve um momento em que parecia que estávamos simplesmente governando”, relatou.

Ela contou que reservou parte das férias de verão para refletir, na esperança de recarregar as forças. “Mas, infelizmente, não consegui. Eu estaria prestando um péssimo serviço à Nova Zelândia se continuasse no cargo.”.
Ardern destacou a importância de saber a hora de sair: “Espero deixar os neozelandeses com a crença de que é possível ser gentil e forte; empático e decisivo; otimista e focado. E que você pode ser seu próprio tipo de líder, alguém que sabe quando é hora de ir embora. Sou humana. Damos tudo o que podemos pelo tempo que podemos e então chega o momento. E para mim, é o momento.”.
Por fim, disse que agora quer passar mais tempo com a família. “Para Neve: a mamãe está ansiosa para estar presente quando você começar a escola este ano. E para Clarke — vamos finalmente nos casar.”.
Coragem em todas as etapas
Quando vi essa notícia espalhada nos grandes portais, muitas coisas me vieram à mente. A primeira delas foi: que mulher corajosa!
A começar pela candidatura ao maior cargo de um país em um ambiente historicamente dominado por homens. Entre as 40 pessoas que já ocuparam o posto, ela foi a terceira mulher, depois de Jenny Shipley (1997-1999) e Helen Clark (1999-2008).
Depois, ao assumir a liderança de mais de 5 milhões de neozelandeses, sua bem-sucedida gestão diante de diversas crises durante o mandato ganhou destaque internacional, especialmente no enfrentamento da pandemia de Covid-19.
E, talvez o mais admirável, por reconhecer a hora de sair de cena, mudar a direção e priorizar a própria saúde mental.
Tudo isso exige coragem. Não à toa, a decisão repercutiu mundo afora.
Quem sabe ela esteja vivendo a chamada crise dos 40, aquele momento de reavaliação de prioridades e de reflexão sobre o que ainda vale a pena. Jacinda, além de líder política, é uma mulher de 42 anos, mãe de uma criança de 5 e com um casamento em curso.
O poder tem um preço que ela, aparentemente, não está mais disposta a pagar, pois sabe que pode contribuir socialmente de outras formas, menos pesadas que a cadeira de primeira-ministra.

É interessante como nossas prioridades e sonhos vão se transformando ao longo da vida. O que era importante aos 20 pode ganhar um novo sentido aos 30. É como se, por vezes, fizéssemos um balanço do que foi vivido. Sei que podemos repensar o rumo de nossas vidas a qualquer momento, mas há períodos em que isso parece aflorar — após a maternidade, por exemplo, ou em determinadas idades. A crise dos 40 é uma delas, sou prova disso.
Curva da felicidade
Se a expectativa média de vida gira em torno de 70 anos, passar dos 40 significa já ter vivido mais da metade do caminho. Estamos mais perto do fim, mas ainda com energia para gastar. Jovens para algumas coisas, velhos para outras. É hora de investir no que realmente importa.
O corpo muda: a produção hormonal diminui, o metabolismo desacelera e a urgência de antes talvez não exista mais — ou mude de direção. É uma transformação física e emocional. Ficamos mais realistas sobre o que ainda é possível realizar com o tempo e a saúde que temos.

O economista David Blanchflower, professor em Dartmouth College (EUA), reforça essa percepção. Em pesquisa publicada em 2020, ele descreve a “curva da felicidade”: em vários países, as pessoas são mais felizes na adolescência, enfrentam um vale de insatisfação até o fim dos 40 e voltam a se sentir melhor perto da velhice. Segundo ele, aos 47 já entendemos que certos sonhos não vão se concretizar — e, depois dos 50, começamos a valorizar mais o que temos.
Não é que a vida melhore objetivamente; é a forma como passamos a enxergá-la que muda.
Enfim, não sei dizer se Jacinda vive a sua própria crise dos 40 e se foi isso que a levou a deixar o cargo de premiê. Mas, sem dúvidas, foi uma decisão difícil e corajosa.
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