Nesses 16 anos de jornalismo, já transitei por muitas funções: reportagem, edição, apresentação. Mas nenhuma, absolutamente nenhuma, me exigiu tanto quanto a de pauteira. Principalmente no hard news, aquele jornalismo que vive no fio da navalha, sempre à mercê do imprevisível.
É preciso doses generosas de saúde mental para suportar a descarga de adrenalina diária. É estressante, sim. Mas, é maravilhoso também. Uma sensação difícil de explicar, como viver entre o caos e a ordem e, de algum jeito, gostar disso.
A correria de um jornal diário atinge toda a equipe, porém a pauta… ah, a pauta é a primeira a sentir o impacto. Todo programa, seja jornalístico ou de entretenimento, começa ali. Se a matéria vai ao ar impecável, os aplausos costumam ir para a reportagem. Mas se algo dá errado… adivinhe quem leva a culpa?
O pauteiro é o primeiro a enxergar a matéria antes mesmo dela existir. É ele quem avalia se o assunto rende, vende a ideia para a chefia de produção e, só então, começa a dar forma ao projeto: marca entrevistas, define imagens, organiza horários, busca locações, levanta informações, monta equipes. E, no meio disso tudo, ainda oferece suporte para repórteres, edição e até para o editor-chefe. Haja café!
Primeiro filtro de notícias
O pauteiro é como um radar humano. Ouve de tudo, principalmente reclamações: “O entrevistado não apareceu.”, “O endereço está errado.”, “Não vai dar tempo.”, “A pauta não rende.”. E a pior de todas, que causa pânico em dias monótonos: “A pauta caiu.”.
Essa última é quase uma sentença: a matéria não vai mais acontecer, seja porque o entrevistado desistiu, o problema se resolveu ou porque a notícia era falsa.
O nível de ansiedade só baixa quando a matéria está no ar. E, mesmo assim, às vezes o coração segue correndo.
Feriados, fins de semana e recessos viram uma verdadeira caça ao tesouro: é o pauteiro tentando fugir do óbvio, cavando histórias improváveis. Por outro lado, há dias em que sobram assuntos quentes e falta equipe para cobrir.
A glória é ver uma pauta “redondinha” ir ao ar do jeito que foi imaginada. Melhor ainda quando repercute. É como marcar um gol nos acréscimos.
Mas o tesouro mesmo de um pauteiro é a agenda telefônica. Uma boa rede de contatos é a sobrevivência de qualquer jornalista, mas, para o pauteiro, é como oxigênio.
Pauteiro x produtor: diferenças e semelhanças
Em algumas regiões, “pauteiro” e “produtor” são a mesma função. Em outras, há distinção:
- Pauteiro: foca na definição e organização das matérias, pesquisa, contato com fontes, levantamento de dados.
- Produtor: acompanha a execução da pauta, dá suporte no campo e na redação, resolve questões logísticas e até administrativas.
No hard news, muitas vezes, um faz o papel do outro. E, em redações enxutas, o repórter se “auto-pauta”, produz, grava e edita. Alguns colegas preferem assim, pois ficam mais livres. Eu confesso que gosto de funções bem definidas, me sinto mais segura.
Entretanto, em tempos de videorrepórter como os de hoje, ser multifacetado pode ser a chave para se manter no mercado.
A porta de entrada
Na maioria das redações, a pauta é o primeiro passo de qualquer estagiário. É a base que sustenta todo o trabalho jornalístico. Sem ela, não há reportagem, não há edição, não há programa. É o coração invisível da redação, batendo no ritmo frenético do dia a dia.
E, apesar de tantas responsabilidades, o reconhecimento salarial costuma ser tímido, com raras exceções, como no Paraná, onde o produtor ganha acima do repórter. No restante do país, pauteiros e cinegrafistas costumam aparecer nas últimas linhas da tabela.
Mas, no fim, o que move quem está na pauta não é só o contracheque. É a satisfação de ver uma história nascer das nossas mãos e ganhar o mundo. E isso, meus amigos, não tem preço.
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Compilado de matérias pautadas e reportadas por mim. Na época, eu trabalhava no escritório do Canal Rural, em Brasília, e, junto com a coordenadora de jornalismo, também me pautava para as reportagens.



