Admiro quem consegue, e até me esforço, para ser mais low profile. Pessoas como Wagner Moura, Adriana Esteves e Scarlett Johansson conquistaram sucesso profissional e sequer têm contas em redes sociais. Um sonho que acredito não ser só meu. Mas viver totalmente off-line não é uma opção para muitos de nós, principalmente para quem trabalha com comunicação.
A exposição, que antes era praticamente limitada a artistas e políticos, hoje alcança qualquer um de nós. Além disso, os canais de veiculação se restringiam a poucos jornais diários, revistas semanais e programas de rádio e televisão, que poucos tinham acesso.
As vizinhas eram a forma mais eficaz de propagação de informações que tínhamos: ficavam de olho na vida alheia e se reuniam nos portões no fim do dia para compartilhar e comentar os assuntos do momento.
Agora, elas ganharam contingente e firmaram parcerias, inclusive internacionais. As notícias verdadeiras e falsas se propagam além dos bairros e ganham o mundo tão rápido quanto um piscar de olhos, em diversas plataformas digitais, sem que as senhoras saiam de casa — basta uma tela conectada à internet.
Avalanche digital
A fama e o contato com um grande volume de informações não pertencem apenas a quem trabalha com comunicação ou arte. Qualquer um de nós pode produzir e consumir os mais variados conteúdos. Podemos dizer que esse processo se tornou mais democrático e, de certa forma ou até certo ponto, independente de grandes produtoras de conteúdo. Pelo menos no início, pois sabemos que o poder continua concentrado nas mãos de poucas empresas. E, quando os influenciadores passam a ser capitalizados, até o que eles entregam se torna, digamos, mais profissional para atender ao mercado.
Vídeos, memes, posts, jogos: tudo é desenvolvido em massa para prender ao máximo nossa atenção. O documentário ‘O dilema das redes’, disponível na Netflix, aborda detalhadamente esse processo de criação de dependência. Vale a pena assistir e refletir.

Ao mesmo tempo em que a produção e o consumo ficaram mais acessíveis, a sobrecarga de dados pode ser danosa. Muitas pessoas conquistaram ascensão social e financeira por meio de trabalhos digitais — o que é maravilhoso. A situação se torna preocupante quando se ultrapassa a linha do que é saudável.
Um estudo da Escola de Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia, publicado em 2011 na revista Science, revelou que recebemos diariamente informações equivalentes a 174 jornais. Em 1986, esse número era cinco vezes menor. Veja o que diz o levantamento:
“Estimamos a capacidade tecnológica mundial para armazenar, comunicar e computar informações, monitorando 60 tecnologias analógicas e digitais entre 1986 e 2007. (…) A capacidade de computação cresceu a 58% ao ano. A maior parte da nossa memória tecnológica está em formato digital desde o início dos anos 2000 (94% digital em 2007).”
Sem dúvidas, atualmente, cerca de 16 após esse estudo, o volume de exposição cresceu exponencialmente, assim como os riscos. Termos como infodemia e FoMO levantam o debate sobre os perigos do virtual para a saúde mental.
Infodemia e FoMO: o adoecimento silencioso
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), “uma infodemia é o excesso de informação, incluindo informações falsas ou enganosas, em ambientes digitais e físicos durante um surto de doença. Isso causa confusão e comportamentos de risco que podem prejudicar a saúde. Também leva à desconfiança nas autoridades de saúde e prejudica a resposta da saúde pública.”.
Há um tópico na página da OMS dedicado a esclarecer o que é infodemia, seus riscos e como reduzir danos.

Fear For Missing Out (FoMO), ou medo de estar perdendo algo, é descrito em reportagem do site do Ministério da Fazenda como “um sentimento desconfortável experimentado por muitos indivíduos que temem perder oportunidades, eventos ou experiências que outros estão vivenciando. Trata-se de um fenômeno fortemente vinculado às redes sociais, onde a exposição das experiências e conquistas é constante e, quando imersos neste meio, pode gerar nos indivíduos esse sentimento de comparação e medo de ficar de fora das oportunidades.”.
O mesmo artigo informa que o comportamento foi identificado e estudado pela primeira vez pelo estrategista de marketing Dan Herman na década de 1990. Um relatório da JWT Intelligence aponta que o FoMO é mais observado entre adultos e adolescentes da geração Millennials. Contudo, ele vem se espalhando para outras gerações à medida que a adesão às tecnologias sociais aumenta.
Da pressão à libertação
Essa pesquisa me lembrou uma entrevista da atriz norte americana Scarlett Johansson, dizendo que não tem redes sociais e que tentou ter uma conta no Instagram por três dias. Ao perceber que havia passado 20 minutos vendo a vida de outra pessoa e, de repente, sentiu que precisava daquela vida e não da dela, desistiu do perfil.

Houve um período em que eu me sentia muito mal por não conseguir ver todos os stories das pessoas que seguia. Era algo quase incontrolável. Um dia, contabilizei quanto tempo da minha vida estava sendo dedicado a isso e quantas outras coisas poderia estar fazendo.
Como não conseguia me desvincular totalmente daquela curiosidade, a solução foi reduzir o número de pessoas seguidas e selecionar apenas perfis que realmente me agregavam algo. Aos poucos, fui perdendo o interesse. Hoje, só abro o aplicativo quando preciso pesquisar algo ou estou com tempo livre, e sem a ansiedade de estar perdendo alguma postagem.
Na mesma época, me sentia obrigada a publicar, apenas para não ficar de fora. Afinal, eu também tinha uma vida interessante e deveria estar online. Como isso era angustiante. Consegui me libertar dessa pressão — imposta por mim mesma ou influenciada por um sistema feito para nos aprisionar. Agora, publico esporadicamente, quando tenho vontade. Me sinto bem mais leve.
Entre o excesso e o equilíbrio
Acho o mundo digital muito atraente e benéfico. Sim, ele traz inúmeros benefícios, desde que usado com sabedoria. Há diversos estudos, disponíveis nas próprias plataformas digitais, que alertam:
- O excesso de informações, especialmente notícias negativas, pode gerar ansiedade e estresse crônicos.
A exposição constante a conteúdos idealizados contribui para a depressão.
O cérebro tem dificuldade de processar grandes volumes de informação, gerando fadiga mental.
O uso excessivo das redes pode causar isolamento social e prejudicar as relações presenciais.
A busca por validação e comparação constante afeta a autoestima.
Esses efeitos psicológicos refletem também no corpo físico:
- Dispositivos antes de dormir afetam o sono, levando à insônia.
Estresse e ansiedade causam problemas gastrointestinais, como gastrite.
A sobrecarga cognitiva compromete o desempenho e gera cansaço generalizado.
Como não ser consumido?
As saídas para não se deixar consumir pelo mundo virtual exigem esforço — especialmente porque muitos de nós trabalham ou se divertem por meio das telas.

Para não cair nas armadilhas dos algoritmos, algumas recomendações são, sempre que possível:
- Estabelecer limites de tempo para uso de redes e dispositivos.
- Buscar fontes confiáveis e evitar conteúdos sensacionalistas.
- Praticar exercícios físicos com regularidade.
- Buscar ajuda profissional, se necessário.
- Dedicar tempo a relações reais, hobbies e atividades ao ar livre.
Nem todo mundo pode — ou quer — abandonar o mundo digital. Aliás, isso é praticamente impossível atualmente. A tecnologia está integrada à nossa rotina. No entanto, é possível não ser refém dela. Ter liberdade para transitar entre o real e o virtual é uma conquista. Alcançar o equilíbrio é alcançar a paz.
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