Sempre passei por São Paulo, mas nunca fiquei em São Paulo. A cidade era para mim mais rota do que destino: a estrada que se contorna para chegar a outro lugar, o aeroporto que se atravessa entre uma conexão e outra. Na semana passada, finalmente, tive a oportunidade de estender a estadia e turistar pela cidade.
Pra não dizer que nunca havia estado de fato, houve uma excursão da faculdade, 2004. Foram nove horas de estrada de Maringá até a capital paulista. Chegamos pela manhã direto na redação da TV Bandeirantes. Fiquei vidrada naquele ambiente e, em especial, em uma jornalista que apresentava um boletim ao vivo, enquanto eu, fascinada, sonhava em um dia estar ali.
Depois, almoço rápido no shopping e, à tarde, gravação do Programa do Jô Soares, na TV Globo. Ficamos na plateia. Enquanto aguardávamos o início, fiz amizade com um rapaz da produção e, de repente, estava conhecendo os bastidores de programas como o Mais Você e o Jornal Hoje, que até então eu só admirava pela tela da TV. Mais uma vez, me imaginei fazendo parte daquela equipe.

Terminada a gravação, voltamos para Maringá. Cheguei em casa, larguei a mochila e fui direto ao hospital para mais uma sessão de quimioterapia. Naquele período, careca, usava uma peruca feita com meu próprio cabelo. Não gostava de me sentir, e menos ainda parecer, doente. Misturar-me a pessoas saudáveis era como esquecer, por algumas horas, a minha realidade.
Não fiquei nem 24 horas em São Paulo, porém voltei carregada de sonhos, mesmo vivendo um momento de luta pela vida.
De volta a São Paulo
Agora, quase vinte anos depois, São Paulo me recebeu novamente. Dessa vez, fiquei cinco dias para comemorar meus 40 anos. Não foi suficiente para abraçar a cidade inteira, ainda mais porque a programação precisava se ajustar ao ritmo de uma criança de cinco anos. Mesmo assim, a experiência foi intensa.
Descemos pela Avenida Paulista, inexplicável em sua dualidade: durante a semana, centro econômico; no domingo, palco cultural. Museus, Sesc, artistas de rua, pluralidade. O metrô nos levou ao Catavento, onde experimentamos ciência com olhos curiosos. Houve teatro, show de mágica, o burburinho da 25 de Março e Santa Efigênia, os sabores do Mercadão, a energia da Galeria do Rock, o Minhocão num sábado à tarde, os cenários de novelas no Centro Histórico.

São Paulo é aquela amiga que fala alto, anda rápido e, ao mesmo tempo, te acolhe como se estivesse em casa.
Mas também assusta. Ficamos hospedados na região central, próximo ao Largo do Arouche, famoso pela comédia Sai de Baixo. Já no check-in do hotel, recebemos o primeiro alerta: “Cuidado, não andem com o celular à mostra, evitem sair sozinhos à noite”. Nos carros de aplicativo, os motoristas repetiam: “A cidade está violenta, não deem bobeira. Eles quebram o vidro do carro para roubar.”.
No começo, ficamos tensos. Depois, a cidade foi se revelando mais hospitaleira, e conseguimos relaxar e aproveitar.
Inocência indignada
A diversão, por vezes, foi interrompida pelas crises de choro de Joaquim, meu filho, ao ver tantas pessoas em situação de rua. Inconformado com a desigualdade, queria ajudar todos. Diante da impotência de socorrer tanta gente, recorreu ao divino. Desde então, faz orações diárias pelos pobres. São Paulo plantou nele essa semente de compaixão.
A viagem não deu conta de todos os pontos turísticos. Ficaram lacunas que quero preencher numa próxima ida. No entanto, retornamos para casa abastecidos de experiências e memórias marcantes. Foram 649 quilômetros percorridos para celebrar meus 40 anos e, de quebra, os 469 anos de Sampa.
São Paulo é espantosa e generosa, desigual e plural, dura e calorosa. É viva. Cidade que não dorme, que fala todos os idiomas, que pulsa cultura, arte e economia. Sem contar a diversidade culinária. Não acolhe apenas os filhos: abre-se a quem quiser chegar. Não é só brasileira, é do mundo inteiro.
A senhora de quase meio milênio faz aniversário e presenteia a todos com sua vitalidade. Parabéns, São Paulo. Espero nos vermos em breve!
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