Há poucos dias brindamos a chegada de 2023. Pelo menos nós, que seguimos o calendário gregoriano — aquele criado pelo Papa Gregório XIII em 1582 para ajustar o ano civil ao movimento do sol, com seus 365 dias e, de quatro em quatro anos, um dia extra para encaixar as horas sobrantes. Mas, do outro lado do mundo, há quem conte o tempo de forma diferente.
Hoje, 22 de janeiro, cerca de 1,5 bilhão de pessoas celebram o Ano-Novo Lunar. Para eles, já estamos no ano de 4721. A virada não tem data fixa: ela acontece na primeira Lua Nova depois do solstício de inverno, podendo cair entre 20 de janeiro e 18 de fevereiro. É um calendário que se move no ritmo dos céus, com 12 ciclos completos da lua formando um ano.
Na China, no Vietnã, na Coreia, nas Filipinas e em outros países asiáticos, esse é um período de festa que dura dias. Na antevéspera, por exemplo, surgem as feiras de flores, as faixas vermelhas de boa sorte e os pratos simbólicos. Doces são servidos não apenas pelo sabor, mas pela mensagem — em mandarim e cantonês, a palavra para “doce” soa como a palavra para “alto”, e assim, comer açúcar é desejar crescimento para o ano que chega.

Famílias se reúnem na noite da virada e ficam acordadas até tarde. É tempo de trocar bênçãos, visitar parentes, amigos, vizinhos. O ciclo festivo termina no 15º dia, com o Festival das Lanternas. Antigamente, era a única ocasião em que as moças podiam sair de casa para ver as luzes e, talvez, encontrar um par. Hoje, são as cidades que se enfeitam, virando palco de cores e símbolos que falam de paz, esperança e renovação.
Animais, elementos e ciclos
O zodíaco chinês também marca o Ano-Novo Lunar. De acordo com uma das lendas, os anos são representados por 12 animais que disputaram uma competição cósmica para atravessar um rio, definindo assim a ordem dos signos.
Por outro lado, uma versão vinda do budismo, conta que Buda convocou todos os animais para uma reunião, mas apenas 12 compareceram. Em agradecimento, ele nomeou cada ano em homenagem à ordem de chegada desses bichos.

Além dos animais, cada ano recebe a influência de um elemento — água, metal, terra, fogo ou madeira. Essa combinação cria um ciclo de 60 anos, no qual cada animal se encontra com cada elemento uma vez, atribuindo características únicas a cada período.
Este ano é o do Coelho — símbolo de inteligência, cautela e serenidade. Diz a lenda que, mesmo sem ser bom nadador, o coelho venceu o desafio cósmico atravessando o rio numa jangada. No Vietnã, o animal do ano é o Gato, mas a mensagem é a mesma: seguir com leveza e astúcia.
Além das lendas
Gosto dessas datas em que o mundo pausa para desejar o bem. Em que o calendário, seja solar ou lunar, serve apenas de desculpa para reunir, celebrar e agradecer. Pode ser que nada mude no dia seguinte — mas o simples ato de juntar tantas pessoas em torno de bons pensamentos é, por si só, transformador.

As festividades são lindíssimas, contagiantes e cheias de emoção. Atraem a atenção até de quem não segue a tradição ou não acredita em seus símbolos. É difícil ficar indiferente diante das ruas tomadas por cores, sons e sabores que carregam mensagens de esperança, sorte e prosperidade.
O Ano-Novo Lunar me lembra que o tempo é livre. Que ele não pertence a um papel impresso com meses e dias. Ele escorre, misterioso, sem dono, e cada cultura o veste com o traje que quiser — de coelho, de gato, de lua ou de sol. No fim, pouco importa como contamos os anos: o que vale é celebrar o tempo enquanto o temos.
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