Mãos de gerações diferentes juntas (avô, pai, filho) Memorias

Somos memórias

Outro dia me peguei pensando: nós somos feitos de memórias, uma espécie de drive de armazenamento emocional, com menos organização que uma gaveta de meias. E cada lembrança tem uma cor, um cheiro e, principalmente, um sentimento colado nela.

E o mais curioso: a memória não é estática. Ela se recicla. Quando lembramos de algo, não é a mesma cena repetida em looping. Sempre que revisitamos uma lembrança, fazemos isso com os olhos de quem somos hoje, com a maturidade — ou a falta dela — que carregamos no momento. Por isso, a mesma história pode ser recordada mil vezes, mas nunca da mesma forma.

Memórias Divertida Mente

Quem viu o filme Divertida Mente lembra bem: para cada emoção, uma cor. Alegria, tristeza, raiva, medo, nojo. Todas brigando para decidir como vamos reagir às ocasiões. Tem uma cena em que Riley, a protagonista, recorda o dia em que perdeu um jogo de hóquei. Para ela, por muito tempo, foi só um episódio de comemoração e acolhimento, porque a parte triste foi editada no arquivo interno. O cérebro é um editor inteligente, que corta e junta pedaços conforme convém.

Versões paralelas da mesma história

E a vida é assim: tristeza e alegria se revezam, muitas vezes no mesmo acontecimento. A lembrança se torna o que o coração permitiu guardar. Isso explica por que duas pessoas podem viver a mesma situação e sair dela com histórias completamente diferentes.

A série This Is Us mostrou isso em um episódio em que Kate e Randall, irmãos Pearson, lembram-se de um mesmo dia da infância. Para Kate, foi mágico, com pizza e guerra de lantejoulas. Para Randall, foi caótico, com    gritos e pratos quebrados. Ambos viveram a mesma tarde, mas guardaram versões opostas dela. No fim, o que ficou para Kate foi a leveza; para Randall, a tensão.

Memórias This Is Us.

A conversa, já na vida adulta, fez Kate se questionar se suas lembranças de infância estavam sendo recordadas de forma equivocada. Randall explica que Jack, o pai deles, fez um bom trabalho se apenas a fez lembrar das coisas boas.

É fascinante pensar que nossas memórias não são apenas registros de fatos, mas interpretações pessoais. Elas carregam nossas expectativas, emoções e até a fase da vida em que estávamos. Por isso, um momento mágico para um pode ser dolorido para outro.

Mais passado que futuro

Chega um ponto em que temos mais passado do que futuro. E aí, é claro, aumentam as histórias para contar. Tenho me policiado para não me tornar aquela pessoa monotemática do “no meu tempo não era assim”. Mas confesso: é quase irresistível. Afinal, vivi o fim da era da TV de tubo, salvei os trabalhos da faculdade em disquete, fiz curso de MS-DOS, vi a internet discada nascer e já achei revolucionário poder usar o telefone sem fio.

Meu filho de cinco anos não entende nada disso. Para ele, o mundo sempre teve Wi-Fi, tablets e desenhos sob demanda. Tento explicar que já existiu uma época sem internet e ele me olha como quem escuta uma fábula impossível.

Nós somos coleções de lembranças que, alinhadas ou embaralhadas, contam quem fomos e quem ainda somos. Preservar a memória é fundamental para entender o caminho percorrido — tanto de uma pessoa quanto de uma sociedade inteira.

Sempre gostei de ouvir meus avós e outras pessoas mais velhas. Eles falavam de guerras, ditaduras, mudanças de moeda, planos econômicos que sumiam mais rápido que o salário no fim do mês. Contavam de bailes, de namoros à distância via carta, de como foi ter a primeira televisão em casa. Eu me deliciava com essas histórias, tentando imaginar como era o mundo deles.

E penso: quanta coisa eles viveram e quantos mundos couberam numa só vida. O passado deles, transformado em memórias, é o que hoje nos ajuda a entender quem somos. É tradição misturada com modernidade, é tentativa de perpetuar legados e, às vezes, de não repetir erros.

As memórias são intrínsecas à nós. Mesmo alguém que sofre com doenças como Alzheimer ou Parkinson ainda guarda lembranças. Pode esquecer as coisas recentes, mas as memórias mais antigas e marcantes permanecem, revelando afetos maiores que o tempo.

Memória como identidade

As memórias são intrínsecas a nós. No fim das contas, somos feitos de lembranças. Somos experiências que se transformaram em pequenos fragmentos de identidade. Nem todas são felizes, nem todas são tristes, mas todas são nossas — todas somos nós.

E como disse Rebecca, em uma conversa com Miguel em This Is Us, o que dói não é esquecer os grandes eventos, mas os sábados normais, aqueles dias em que não acontecia nada “importante”. Porque, no fundo, são esses instantes comuns, aparentemente banais, que formam quem somos.

Se algum dia a memória me trair, espero que ela, generosa, faça como o pai dos Pearson: que apague os pratos quebrados e me deixe apenas com a guerra de lantejoulas.

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